segunda-feira, 19 de março de 2018

Após um mês, Temer não consegue dizer de onde vem o dinheiro para intervenção no RJ




JOSIAS DE SOUZA
Das várias maneiras para um governo atingir o desastre, o populismo é a mais traiçoeira, a falta de planejamento é a mais segura e a ausência de dinheiro é a mais rápida. Na intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, Michel Temer conseguiu unificar os três flagelos. Há um mês, vendeu a ilusão de que derrotaria o crime organizado armado apenas de um plano feito em cima do joelho. Neste domingo, após reunião do presidente com um grupo de ministros, o governo informou que precisa de mais uma semana para dizer quanto vai gastar e de onde vai tirar o dinheiro.
Na semana passada, abalroado pela notícia sobre o duplo assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, Temer declarou que os criminosos “não destruirão o nosso futuro; nós destruiremos o banditismo antes.” Alguém que, mergulhado no insolúvel, continua a dizer coisas definitivas sem definir as coisas ou é um cínico ou é um desesperado. E em nenhum dos casos é um presidente à altura do drama da segurança pública. Temer age como se considerasse que a fantasia é uma opção preferível ao caos —ou ao Pezão, que muitos acham que é a mesma coisa.
O improviso de Temer produziu uma conjuntura crivada de excentricidades. Ao intervir apenas na segurança e não em todo o governo fluminense, o presidente fez de Luiz Fernando Pezão, seu companheiro de PDMB, um ex-governador no exercício do cargo. Ao colocar o Exército na rua sem suprimento$ na retaguarda fez do interventor Braga Neto um general sem intendência. Ao criar um Ministério da Segurança sem dotá-lo de orçamento, tornou Raul Jungmann um ministro extraordinário de uma pasta-fantasma.
Estiveram com Temer no Palácio da Alvorada os ministros Dyogo Oliveira (Planejamento), Moreira Franco (Secretaria-Geral), Torquato Jardim (Justiça), Raul Jungmann (Segurança), Eliseu Padilha (Casa Civil) e Sérgio Etchegoyen (Segurança Institucional). Coube ao titular da pasta do Planejamento fazer as vezes de porta-voz do nada.
“Acho precipitado adiantar valores, porque os números estão sendo fechados”, disse Dyogo Oliveira, escancarando a improvisação. Busca-se dinheiro para bancar a intervenção e verba para custear a pasta da Segurança. “A soma dos dois é na casa de bilhão”, acrescentou o ministro. Noutro instante, Dyogo foi impreciso no plural: a coisa toda chegará a “alguns bilhões”, disse o chefe do Planejamento do governo cujos planos costumam ter uma profundidade que pode ser atravessada por uma formiga —com água pelas canelas.